quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sindicato

Por que do individualismo contemporâneo?
Hiran Roedel*

Compreender as novas articulações que orientam as relações sociais atuais implica observar de que modo interagem entre si as transformações objetivas, definidas como globalização, e o novo modo de pensar social.

A emergência do ultra-individualismo contemporâneo esvazia de conteúdo as formas de explicar o mundo que prevaleceram até recentemente, transformando seus conceitos, muitas vezes, em cascas ocas, palavras vazias de conteúdo, pois não dão mais conta da realidade que tentam expressar. Esta se alterou. Esse é o grande problema vivido pelos movimentos políticos que têm sofrido da incapacidade de conviver em mundo que acelerou o ritmo das mudanças e põe o indivíduo cada vez mais isolado, desarticulando-o, em seu processo produtivo, de um todo. Alienado que está, por esse processo, posiciona-se indiferente diante da realidade vivenciada. Mas, por que do desinteresse em relação à política?

Que os trabalhadores se encontram desmobilizados politicamente, isto é fato! Uma desmobilização que tem estreita relação com dois aspectos: a) a imposição de novas formas de organização da produção, e b) a afirmação do capitalismo enquanto processo civilizatório, hegemônico, que sublima o individualismo como forma predominante de relação social. O primeiro aspecto põe em xeque o modelo de sindicato existente, enquanto no segundo, a sublimação do individualismo, encontra terreno fértil para seu desenvolvimento com a descentralização da produção e a individualização do trabalho, rompendo os laços de solidariedade de outrora e levando o sindicato a perder, em muito, a capacidade de expressão política da vontade coletiva.

Apesar dessas mudanças não impactarem diretamente sobre o trabalho e organização dos professores, ao se imporem ao conjunto da classe trabalhadora repercute sobre o professorado no momento que corresponde à posição hegemônica do capitalismo e, por isso, orienta o modo de pensar da sociedade. Por decorrência, afirma-se uma conjuntura de precarização das relações de trabalho, pois o individualismo despolitizado e desmobilizador, ao fragilizar o sindicato como a ferramenta coletiva de luta, desloca o debate da elaboração de projetos futuros de enfrentamento de suas questões cotidianas para o imediatismo do discurso jurídico, impondo soluções de curto prazo, pois o que vale é o aqui e agora.

Nesse sentido, a forma sindicato é posta em xeque não porque ela tenha perdido a sua validade histórica, mas porque o novo modelo de organização do mundo do trabalho associado à forma de produção do pensamento se sustenta em bases do individualismo, rompendo com a lógica dos projetos coletivos. Isso porque a incapacidade de responder à nova realidade tem levado o sindicalismo a se afastar dos embates políticos e se enveredar pelo assistencialismo, trabalhando não como questionador da ordem, mas atuando por dentro desta e privilegiando o embate jurídico. Diante de tal cenário, o cumprimento da legislação, o oferecimento de serviços, o aparelhamento tecnológico, atividades de lazer passam a ser alguns dos “produtos” oferecidos pelo novo sindicalismo.

No magistério não é diferente. O professor vivencia em seu cotidiano a precarização das relações de trabalho e se encontra sensibilizado, como o conjunto da sociedade, pela sublimação do individualismo, ou seja, pela liberação das barreiras estabelecidas por uma ética que tinha na solidariedade de classe a sua inserção no campo social. Esse mesmo professor não vê no sindicato a ferramenta política capaz de se opor ao alto grau de exploração pelo qual passa, mas o enxerga sim como um departamento jurídico que em momento de dispensa ele pode recorrer, ou como uma agência que pode intermediar a assistência médico-hospitalar com plano de saúde. Nesse caso, para que participar da vida do sindicato se as questões cotidianas do professor deixaram de ser respondidas pela política e se deslocaram para o jurídico e/ou administrativo? Situação que tem levado ao esvaziamento político do sindicato.
*Diretor da Plurimus

Um comentário:

Waldir Carlos Pereira disse...

já conhecia o seu Blog através da Profª Lídice. Achei-o muito
oportuno. Sou professor há várias décadas. A partir de 1994, nosso
salário foi engessado pelo Plano Real e, até hoje, não conseguimos
desprendê-lo. Este ano, surgiu a grande oportunidade. Por estarmos há mais de 10 sem qualquer aumento salarial, o próprio governador já
admitia reajustar os salários dos professores. Com o surgimento do
famigerado Piso Nacional do Lula, que teve como parâmetro os Estados
mais pobres da Federação, o esperto governador mineiro justificou-se dizendo já pagar mais do que foi estabelecido pelo Piso Nacional.
Infelizmente, os professores de Minas Gerais estão sem liderança.
Se você perguntar a cem professores quem é seu representante no Estado, tenho certeza que nem 5 saberão responder.
Nosso sindicato já teve grandes líderes, tais como Luis Dulci,
Fernando Cabral...
Hoje, infelizmente, os que o administram não têm nenhuma expressão.
É uma pena!