quinta-feira, 26 de junho de 2008

Considerações sobre o Brasil e a Sociedade do Conhecimento

Daniel Roedel*

A emergência do conhecimento como diferencial competitivo para as organizações e países tem sido evidenciada por diversos estudos e análises especializadas. A constatação é de que produtos e serviços intensivos em conhecimento e inovação criam valor superior e sustentam vantagens competitivas. Desse modo, todos os setores da economia dos países se reorganizam visando a incorporar os diferenciais de conhecimento e inovação naquilo que produzem.

Se considerarmos que cada vez mais a economia e os mercados dos países estão se tornando interdependentes, a “corrida” pelo conhecimento se torna mundial fazendo com que os investimentos na produção do conhecimento considerem também as estratégias adotadas pelos demais competidores. E para que o conhecimento seja gerado a partir da pesquisa, desenvolvimento e inovação, a educação tem sido reconhecida como fator primordial.

Apesar de os diversos autores que abordam o tema conhecimento convergirem para o fato de que o conhecimento ocorre nas pessoas e na sua interação com as outras, vale ressaltar que para fazer essa diferença é necessário um processo educacional permanente, ou seja, o conhecimento que cria valor é adquirido pela educação em seus diversos níveis. E os países que têm se destacado nessa denominada economia do conhecimento praticam elevados investimentos em educação. É esse conhecimento, cuja base tem início na formação educacional, que uma vez aplicado em pesquisa, desenvolvimento e inovação, promoverá o novo valor dessa sociedade.

E o Brasil, como se encontra em relação a esse ambiente competitivo? Quais têm sido as prioridades dos governos nas décadas recentes? Os investimentos em educação têm se traduzido em novos produtos e serviços intensivos em conhecimento? Inicialmente, deve-se destacar que o modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo país a partir de 1964 aprofundou a relação subordinada com o capital internacional, opção assumida na década de 1950. E foi no regime militar que ocorreu o afastamento gradativo do poder público na educação superior, dando prioridade aos investimentos privados.

Independentemente de qualquer juízo acerca da participação da iniciativa privada na educação, vale ressaltar que a prática da pesquisa está mais presente nas instituições de ensino superior públicas, mesmo diante da exigência do MEC quanto à presença articulada entre ensino, pesquisa e extensão nas universidades. Como exemplo da dificuldade do investimento em pesquisa por parte das IES privadas, vale lembrar a afirmativa, há poucos anos, do dirigente de uma das maiores IES particulares do país quanto à não valorização da pesquisa em sua instituição, por considerá-la pouco interessante para os propósitos institucionais.

É claro que a baixa presença da iniciativa privada na pesquisa, aliada a uma falta de estratégia por parte do poder público, compromete o desenvolvimento e a inovação de produtos, reduz a iniciativa a alguns nichos e repercute negativamente na presença do país no mercado internacional. Como exemplo, temos o que o professor Reinaldo Gonçalves denominou em 2001 de “reprimarização do padrão de comércio internacional brasileiro”, ao constatar que as exportações de produtos agrícolas estavam aumentando e os produtos industrializados declinando na segunda metade dos anos 1990[1], fato que não se explica apenas pela variação cambial ou pela existência de possíveis barreiras tarifárias.
A situação de dificuldades na educação superior também se manifesta no ensino fundamental e no ensino médio. O fato se torna mais grave se compararmos a realidade do Brasil com os demais países da América Latina, que também foram colonizados e se enquadram na classificação de “terceiro mundo”.
O quadro a seguir expõe a comparação com relação aos jovens de 17 a 20 de idade e que completaram as seis primeiras séries de estudo:

Taxas de Alunos com Ensino Primário Completo entre os Jovens
de 17 a 20 Anos de Idade

País

Ano

% completa a

6ª série

Ano

% completa a

6ª série

Argentina

-

-

1999*

98

Bolívia

1980*

86

1999

77

Brasil

1988

49

1999

68

Chile

1990

93

1998

96

Colômbia

1990*

86

1999

76

Costa Rica

1989

85

2000

88

El Salvador

-

-

1999

54

Honduras

1992

69

1999

70

México

1989

83

2000

88

Nicarágua

-

-

1998

60

Panamá

1991

92

1999

94

Peru

1991

96

2000

95

Uruguai

1992*

97

1998*

96

Venezuela

1989

87

1999

90

* Apenas áreas urbanas.

Fonte: Servicio de Información Social, Departamiento de Investigación, BID, baseado em pesquisas domiciliares.

O quadro demonstra que nossa posição supera apenas El Salvador e Nicarágua, países cujas economias são bastante inferiores à economia brasileira. No entanto, apesar dos dados sobre a educação no Brasil serem bastante desfavoráveis, a necessidade de inserção competitiva do país no mercado mundial tem provocado reações, inclusive no meio empresarial, quanto à necessidade de se mudar essa realidade, uma vez que a educação se torna um ativo valioso para reestruturação produtiva em curso nas empresas. Sob essa ótica, a educação não se apresenta como uma preocupação exclusivamente brasileira. A relação entre conhecimentos, habilidades, treinamento e desenvolvimento industrial está fortemente presente nos países de alto desempenho e requerida como prioridade nos demais países que buscam se inserir nessa economia global[2].

Desse modo, após a superação de obstáculos considerados cruciais pelos governantes para a estabilidade da economia, hoje, o país se encontra num momento de opção estratégica acerca do modo de inserção nesse mercado global. Será mantida a posição histórica predominante de provedor mundial de matérias primas de baixo valor agregado, ou será construída uma agenda positiva de desenvolvimento que considere os investimentos em educação, pesquisa e inovação como essenciais? Essa decisão não pode ser postergada, porque tais investimentos são de resultados a longo prazo. Além disso, as gerações que não foram contempladas com os programas educacionais nas últimas décadas estão sendo adotadas por modos de sobrevivência predominantes na economia informal e, muitas vezes ilícita, fazendo com que toda a sociedade pague um preço bastante elevado. A esse respeito, a adoção, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH[3], onde o nível de educação da população é destaque, pode ser um estímulo para uma nova agenda no Brasil.

Concluindo, embora a educação seja um caminho fundamental para a inserção competitiva do Brasil na economia do conhecimento há que se considerar que a baixa ênfase no tema em nossa história é o reflexo também da formação autoritária de nossa sociedade, principalmente da elite dirigente que desconsiderou esse e outros temas relevantes para o desenvolvimento econômico e social do país. Assim, é sempre oportuno relembrar Roberto DaMatta[4] que destaca o “você sabe com quem está falando?” como traço marcante da hierarquia e do autoritarismo presentes em nossa formação.

*Daniel Roedel é Diretor da Plurimus

Notas
(1) Revista de Economia Contemporânea – volume 5, edição especial – Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2001.

(2) BOMENY, Helena. "Raízes e asas" do investimento empresarial em educação. Rio de Janeiro: CPDOC, 1999. 29f. (Textos CPDOC; nº 31).

(3) De acordo com o PNUD o objetivo da elaboração do Índice de Desenvolvimento Humano é oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento. O IDH considera também a longevidade e a educação.

(4) DaMatta, Roberto – Carnavais, Malandros e Heróis. Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro– 6ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

3 comentários:

Victor Rizzo disse...

Caro Daniel, o artigo está muito bom e pertinenete com o atual momento de crescimento do páis. Vou indexa-lo em meu blog nos artigos sobre a falta de mão-de-obra especializada e o crescimento do país e sobre inovação.

Alda disse...

Dani,

Parabéns pela iniciativa.

Hoje, dia 09/07, uma notícia no Globo me chamou a atenção: trata do ranking mundial de produção científica, divulgado ontem pelo CAPES, onde o Brasil aparece na 15ª posição, a frente de países como Suíça, Suécia e Israel. Esta posição o Brasil já detinha em 2007, mas a produção científica brasileira cresceu de 2,02% para 5%, na pesquisa deste ano, relativa a 2007. A propósito, o Ministro Haddad disse que o desafio brasileiro é transformar trabalho científico em tecnologia, com o que concordo plenamente.
Espero que seu blog possa contribuir definitivamente para criar esta ponte. Bjs.

Alda disse...
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